quarta-feira, 27 de março de 2013

A que horas passará o autocarro? (Luís Gonçalves)


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AUTOR: Luís Gonçalves
COMÉDIA

TEATRO


Se estiver interessado/a em representar esta peça de teatro agradecia que entrasse em contacto comigo, através do meu email: goncalvesluis_1@hotmail.com
ou do meu telemovél: 916940893

PERSONAGENS:

Dona Celestina:
Piélas (bêbado):
2 passageiros:


1 passageira:

Graça:
Rapaz da Pizza:
                                                                        Policia:
                                                                        Motorista:
                                                                   Senhora de Idade:



CENA 1

Numa paragem do autocarro, está um individuo todo embriagado deitado no chão a dormir tem um carapuço todo sujo na cabeça. Sentada no banco está uma senhora com cerca de 60 anos a fazer a sua renda á espera do autocarro, tem uma carteira ao pé de si. Esta usa uma grande cabeleira, tem metade do buço (bigode) por fazer e uns oculos ao fundo do nariz. Além de um banco, há um sinal de paragem de autocarros e um caixote do lixo. Há mais dois homens e uma senhora em pé á espera do autocarro


Celestina: Que massada! Mas será que o autocarro nunca mais vem? (olha para as horas do seu relogio de pulso. Continua com a sua renda)  4 minutos atrasado! Este motorista é sempre o mesmo, sempre atrasado! Não há dia nenhum que chegue a horas, deve pensar que as pessoas têm a vida dele. Hã! Mas eu sei muito bem o que este motoristazeco anda a fazer! Sei muito bem qual é a razão do atraso. Anda metido com a empregada do café do moelas! Parece que vai lá para o café para o marmelanço mais ela, depois uma pessoa é que tem de ficar aqui á espera a secar.  Ouvi dizer que andam para lá aos beijos mesmo na frente dos clientes não tem vergonha nenhuma. Aquele café é pior que a casa dos segredos! Mas tão bonito é ele como ela. Pois a moça é casada, tem dois filhos de pais diferentes e nenhum é do actual marido!  É mesmo uma badalhoca aquela gaja. E agora por causa deles tenho a minha vida atrasada. Precisava tanto de ir á vila e não tenho transporte proprio. O meu marido já faleceu, foi no dia do nosso casamento, o padre perguntou-lhe se ele queria casar comigo e ele nem teve tempo de responder. Caíu para o lado nunca mais se levantou. Bateu logo ali a asa! Já tentei tirar a carta de condução, mas chumbei 20 vezes no exame de codigo. Á 21ª vez passei, mas cheguei ao exame de condução, não parei num sinal de stop e pimba! Chumbei novamente! É que esta aldeia é pior que a linha do ramal da Lousã! Parou no tempo! Não há nada para uma pessoa ir á compras. Só um café. Tivemos comboio mas fecharam a linha, tinhamos um talho mas foi fechado pela Asae, porque pelos vistos foram apanhados a vender carne de ponei, em vez de carne de cabrito. Por isso, quando precisamos de alguma coisa, temos de ir á vila de autocarro, ou então de boleia. Mas isso de aceitar boleias já acabou há muito tempo. Aqui a Celestina já não aceita boleias de ninguém primeiro, porque temos porque temos que puxar pela nota no final da viagem, depois porque aqui há tempos uma vizinha minha deixou-me a meio do caminho, porque eu ia a falar de mais. Ainda tive que andar a pé uns bons quilometros e eu já tenho 60 anos. Não sou nenhuma jovem! Por isso é que nunca mais aceitei boleia de ninguém, só vou á vila de autocarro. Mas primeiro que ele cá chegue é um castigo. (olha para as horas) 15 minutos atrasado! (continua com a fazer a sua renda) Eu que tenho tanta coisa para lá fazer na vila. Precisava de ir ás compras. Tenho que andar sempre a pedir chouriço ao meu visinho, porque não tenho lá em casa. Se não fosse o homem não comia chouriço.  Precisava de ir á Manuela dos pêlos arrancar o resto do meu buço, pois a neta, da filha da minha prima Charneca, fez-me a depilação ao buço mas só arrancou metade, a outra metade ficou por fazer. Se é que é uma habilidade que ela tem e diz ela que tem uma loja de estética. Também havia de ir á cabeleireira, somos muito amigas, sempre batia o papo com a mulher e sempre sabia se o tio, do primo, do irmão dela, anda metido com a nora, da prima, da tia, do cunhado dela. E já agora, se a prima, da mãe, da irmã, do pai, faz alguma coisa de jeito em casa. É pelos visto nem um ovo sabe estrelar! Também precisava de ir á calista, arrancar um calo que me nasceu na ponta da lingua. Isto doi muito, pensam o quê? A Calista está sempre a dizer: “Experimente falar menos!” Eu bem tento mas isto não passa. (olha para o seu relógio de pulso) Mas de certeza que já perdi a vez, por causa daquele motoristazeco de meia tijela que passa a vida no marmelanço. Mas deixem-o cá chegar, que já vai ver qual é o preço dos marmelos! (De repente o bêbado ressona bem alto. A dona Celestina mandam um salto) Raios te partam Bêbado duma figa! Que me assustaste! Este também passa a vida bêbado! Não sei de onde esta trampa veio! Deita cá um pivete e depois passa a vida enfiado no café a beber vinho! Tem o focinho curto o homem. Eu sei muito bem o que havias de beber! Era chá! Chá da meia noite. Ao menos acaba com a desgraça.


CENA 2


Entretanto aparece  a Graça


Celestina: (para o publico) Olhem! Em falar em desgraça, chegou a Graça!


Graça: Olá Dona Celestina! Falta muito para o autocarro? (senta-se ao lado da dona Celestina)


Celestina: (para o publico) Eu não disse que ia ser uma desgraça? Nem o horário do autocarro sabe! Ao menos que compre um! (para a Graça) Olá Graça! Está atrasadissimo! Já estou aqui há quase uma hora e ele ainda não apareceu!


Graça: Este motorista é sempre assim!


Celestina: Então mas como vai a Graça? Já não há olhos que a vejam!


Graça: Olhe, eu vou indo como o governo...


Celestina: (Para o publico) Pois desgovernada!


Graça: Disse alguma coisa dona Celestina?


Celestina: (ri-so cinico) Não! Não! Estava a falar aqui com as minhas agulhas! As malandrecas picaram-me! (novamente o ri-so cinico) Eheeheh! (mudando de assunto)  Então mas anda como o governo porquê? Anda meia entroikada é? (riso cinico)


(dona Celestina está sempre a fazer a renda com muita energia, só pára de vez enquando para falar)


Graça: Ando meia entroicada e de que maneira dona Celestina! Ando cada vez pior e não vejo melhoras.


Celestna: (para o publico) Isso já eu sabia! (para a Graça) Então o que se passa?


Graça: É a minha osteoviróse que dá cabo de mim!


Celestina: Osteo quê Graça?


Graça: Osteoviróse! Não conhece essa doença? Fartam-se de falar disso na televisão. É falta de calcário nos ossos!


Celestina: Mas qual osteoviróse? É osteoprose que se diz! E não é falta de calcário. É falta de calcio nos ossos! Ai Graça mas que desgraça! Você é alguma máquina de lavar ou quê mulher?


Graça: Já fui! Lá vai o tempo em que eu era uma verdadeira máquina, agora não valo nada! Depois é o meu marido, ressona durante a noite depois não me deixa dormir. (O bêbado ressona uma vez bem alto e Cuscantina assusta-se) Ai credo nossa senhora da tramela! Ia-me dando aqui um penico!


Celestina: Um quê?


Graça: Um penico!


Celestina: Fanico mulher! Fanico! Ai Graça! Graça! Mas que desgraça!


CENA 3


Entretanto aparece o rapaz da pizza, traz consigo uma caixa de pizza


Rapaz da Pizza: Ora bom dia! Qual das senhoras é que encomendou uma pizza?


Celestina: Fui eu!


Rapaz da Pizza: Aqui tem! (entrega a caixa de pizza, dá á Celestina. Esta pára de fazer a sua renda e aceita a pizza )


Celestina: Então quanto é que é?


Rapaz da Pizza: Olhe se quer saber nem sei! Acho que são cerca de 5 euros ou 10 euros. Não tenho a certeza! Mas vou ligar para a pizzaria e já me dizem!... (pega no telemovel, marca um numero, espera um pouco e fala) Estou?... Olha quanto é uma pizza 4 estações?


Celestina: Não é a pizza 4 estações! É a pizza Romana! (para a Graça) Ai Graça que desgaça!


Rapaz da Pizza: (continua a falar ao telemóvel) Olha afinal não é a de 4 estações é a Romana! ...


Celestina: (Abre a caixa) É lá! Isto mais parece pizza Africana viu-se negra para cá chegar! É servida Graça?


Graça: Não obrigada! Não tenho fome, comi umas sopas de cavalo cansado ao pequeno almoço!


(Celestina começa a comer a pizza)


Rapaz da pizza: (ao telemóvel) O quê? Estás bem pá? 2 euros uma pizza? 2 euros é o preço da tosta mista pá! Passa o telemóvel á rapariga das mesas! Tu não percebes nada disto pá! ... Sou muito esperto o quê, pá?... Mas quem é que se quer atirar á rapariga? Só que quero fazer uma pergunta de trabalho á rapariga. Já que tu és um incompetente, que nem sabe o preço de uma pizza, deixa-me falar com quem sabe.


Celestina: (para a Graça) Olha quem chama incompetente! O rei da incompetência!


Graça: Realmente! Se é que deve ser uma pinçaria bem arranjada!


Celestina: Pizzaria mulher! Ai Graça que desgraça!


Rapaz da Pizza: (continua a falar ao telemóvel) O quê? Ela não pode falar?... Então porquê? Estou? ... Patrão?... Estou aqui numa paragem do autocarro, patrãozinho... Então queria saber quanto é a pizza Romana?... Sim está bem!... Está bem patrão obrigado!... Com licença! (guarda o telemóvel) Olhe o meu patrão diz que perdeu o catalogo das pizzas e também não sabe os preços decor!


Celestina: Então olhe rapaz! (tira a carteira) Tome lá 50 euros e pode ficar com o troco!


Rapaz da Pizza: Tem a certeza que posso ficar com o troco?


Celestina: Tenho! Vá lá destribuir as suas pizzas á vontade! Esta por acaso está uma delicia! Bem diz o outro quanto mais negra, melhor é a febra!


Rapaz da Pizza: Obrigada minha senhora! (abraça e beija a Celestina) Finalmente tenho sorte na vida! É só azares atrás de azares, então hoje nem se fala! Pois a minha mota ficou sem gasolina ali adiante. Esqueci-me de verificar o deposito e agora estava ver que tinha ir no autocarro!


Celestina: Olhe então aproveite a grojeta e vá meta gasolina nas bombas mais proximas, que o autocarro hoje está pior que as obras do metro mondego. Nem anda nem desanda!


Rapaz de Pizza: Obrigada! A senhora é uma santa, hei-de ir a Fátima a pé só para lhe agradecer! Obrigada!  (sai)


CENA 4


Graça: A dona Celestina está bem? Dá 50 euros ao rapaz assim? Nem parecem coisas suas! Não a estou a reconhecer!


Celestina: Deixe lá isso! A nota também é falsa, fui enganada ante-ontem! Além disso a pizza também não era para mim! Mas como estou cheia de fome aceitei.


Graça: Coitado do rapaz! Não tem mesmo sorte na vida! Deve andar mesmo amaldicioado!


Celestina: Tem a certeza que não quer um bocado de pizza?


Graça: Não obrigada! Não gosto de comer pinça! Prefiro emporrado!


(Celestina mete a caixa da pizza no caixote do lixo. Senta-se novamente e recomeça com a sua renda)


Celestina: Mas que é que você está para aí a dizer mulher? Prefere emporrado?


Graça: Então não sabe o que é emporrado? É tão bom! E um emporrado de espinafres que delicia!


Celestina: Ai Graça que desgraça! Esparregado! É esparregado que diz mulher! Você qualquer dia ainda vai presa, por causa das besteiras que diz!


Entretanto ouve-se a sirena da policia


Graça: Mas o que se passa? Esta ali a policia!


Celestina: Sei lá!


CENA 5


Entretanto aparece o Rapaz da Pizza algemado a ser levado á força por um policia


Rapaz da Pizza: (grita) Solte-me! Solte-me por amor de deus!


Policia: Vamos embora!


Rapaz da Pizza: (grita) Eu só ia para meter gasolina!


Policia: Pois e ias pagar a gasolina com uma nota falsa! Não era? Espertinho!


Rapaz da Pizza: Mas eu não tive a culpa!


Policia: Pois não! Foi o Papa Xico querem ver! Andas a tentar enganar as pessoas e depois não queres assumir as responsabilidades! Podias ir para politico!


Rapaz da Pizza: Mas eu fui enganado primeiro!


Policia: Isso não é a mim que tens de dizer é quando chegar-mos ao posto!


Celestina: É uma vergonha! Já não se pode confiar em ninguém! É só vigaristas neste país!


Rapaz da Pizza:  (grita) Você é que me enganou sua velha!


Celestina: Eu? Eu não engano ninguém!


Rapaz da Pizza: Sua bruxa!


Policia: (para o rapaz) Oh! Oh! Respeitinho rapazola! Senão apanhas a pena a dobrar por insulto a uma cidadã!


Rapaz da Pizza: Mas foi ela que me tramou! Ela é que me pagou uma pizza com uma nota falsa!


Celestina: Eu? Eu nem gosto de comer esse tipo de comidas!


Rapaz da Pizza: Pois! E o Sporting vai ganhar o campeonato esta temporada!


Policia: Cala-te rapaz! Olha que tu não gozes com o meu clube! Que ainda te lixas ainda mais!


Rapaz da Pizza: Mas ela é que me deu a nota falsa!


Policia: Vê se cresces rapaz e assumes o que fazes! Não metas as culpas nos inocentes! Agora vamos para o posto!


Rapaz da Pizza: (grita) Isto não é justo! Isto não é justo! Isto só mesmo em Portugal! Sou enganado e depois vou preso! (para dona Celestina) Eu juro se algum dia a apanhar que a desfaço em picadinhos e meto-a num hamburger! Percebeu sua velha?


Celestina: Está maluco o rapaz!


Policia: (para o Rapaz da pizza) Mais um ano na tua pena! Ameaça a uma cidadã!


Rapaz da Pizza: (grita) Isto não fica assim!


Policia: Cale-te antes que eu seja obrigado tomar medidas drásticas!


Rapaz da Pizza: (grita) Vai paga-las! Vai paga-las!


(Policia e rapaz da Pizza saem de cena e a sirene pára de tocar)


CENA 6


Graça: Ai dona Celestina! Como pode fazer uma coisa destas ao rapaz da pizza? Coitado do moço! Foi preso por causa de si!


Celestina: E desde quando é que em Portugal se prendem os verdadeiros culpados? Além disso! Vai ter roupa lavada, comida de borla e televisão. Tudo de borla! Com a crise que vivemos só tem de me agradecer!


(Piélas volta a ressonar alto. Graça e Celestina assustam-se)


Graça: Aí! Que foi isto?


Celestina: Foi aquele desgraçado daquele bêbado outra vez! Era vir um carangueijo e comer-lhe o coiso!


Graça: Olha mas está ali um homem? Como é que eu não tinha reparado?


Celestina: (para o publico) Eu não digo que esta mulher é uma desgraça? (para a Graça) Abra os olhos mulher! Ele já ali estava quando você chegou mulher!


Graça: Olha mas ele é o Pielas!


Celestina: Foi uma piéla e de que maneira!


Graça:  É ele mesmo o Pielas! Eu realmente bem me pareceu que estava aqui um cheiro esquisito!


Celestina: Pois! Esse é como deserto do Saara já não vê água há séculos.


Graça: Sara? Quem é esse fulano?


Celestina: Mas qual fulano Graça?


Graça:  Esse Sara! Também um homem com nome de mulher, onde é que já se viu? Não me diga... Não me diga que ele é rabiló! Bem isto é para o que está a dar! Deve ser efeitos da troíka! O Passos Coelho mete a malta toda entroicada das ideias.


Celestina: Ai Graça! Mas que desgraça! Você é que anda entroicada das ideias! Eu não falei em nenhum homem chamado Sara! Eu disse que aí esse bêbado, esse Piélas, ou como raio se chama, é como o deserto do SAARA! Não vê água no coiro há séculos!


Graça: Ah! Não diga isso do Pielas! Coitadinho! Olhe que ele ainda pertence á minha familia!


Celestina: (para o publico) Pois agora é que eu estou a ver de onde vêm tanta pancada!


Graça: (levanta-se e vai ter com ele) Coitado do Pielas! Parece que caiu para dentro de uma fossa!


Celestina: Coitado? Coitada é de mim! Já estou farto deste cheiro e de o ouvir ressonar! Assim como estou farta desta manhã infernal, de esperar pelo autocarro e ele não aparece! (olha para o seu relógio de pulso) Daqui a pouco é hora do almoço e aquele verme do motorista sem aparecer! Que irresponsável chixa! É que á tarde não dá para ir á vila, só agora de manhã! Tenho mais que fazer! É que a partir das 2 horas, vai dar na TVI um programa especial com o Manuel Luís Goucha e eu não posso perder. Depois tenho que ver a minha novela que passa logo a seguir. Ah! Também não me posso esquecer de publicar no morar do meu facebook, que apanhei uma grande seca na paragem do autocarro.


Graça: (fala com o pielas como ele fosse um bébé) Piélas! Cucu! Piélinhas! Cucu! Acorda meu malandreco! A prima está aqui, não deixa que te façam mal!


Celestina: Mas o que é que você está a fazer Graça?


Graça: Estou a ver se o Piélas acorda! (para o Piélas) Piélas! Olha a prima! Acorda seu malandro!


Celestina: Ai Graça! Que desgraça!


Piélas: (Acorda meio estremungado) Que é?


Graça: (para o pielas) Olhem para ti pareces mesmo um sem abrigo!


Piélas: Sem abrigo eu? Mas eu tenho abrigo!


Celestina: Deve ser é ali na fossa do Zé dos Porcos pelo cheiro!


Piélas: Mas o quê?? Não me chateiem a cabeça! Eu preciso é de falar com o Albardas! (levanta-se a cambalear, deixa cair o carapuço. Graça vai atrás dele)


Graça: Anda cá Piélas! Para onde vais? Estás bebado!


Pielas: O que queres ao Pielas? Deixa o pielas em paz! O Pielas quer é falar com o Albardas! (chama) Oh! Albardas? Oh! Albardas onde é que estás? Á ladrão! Prometeste-me um copo e fugiste!


(Pielas saí de cena)


CENA 7


Graça: Volta aqui pielas! Ainda és atropelado por um carro!


Celestina: Deus te ouça Graça! Deus te ouça mulher! Também era menos um que andava aí aos caídos!


Graça: (revoltada) Olhe dona Celestina eu não lhe admito isso! Não lhe admito que trate assim o homem! Ele é meu familiar!


Celestina: Mas o quê? Não me levante a voz Graça? Porque eu sou mais velha que voçê! Veja o respeito!


Graça: Respeito? Respeito? Olha quem fala de respeito! Você é que não tem respeito por ninguém, só sabe dar á lingua, é mal-educada, é uma siníca, fala mal de toda a gente e é maldosa!


Celestina: (ofendida) Mas... Mas... mas com quem pensa que está a falar? Quem você pensa que é? Você é uma burra! Nem falar sabe! Não lhe admito que fale assim para mim! Ouviu?


Graça: Falo assim para si, falo dona Celestina! Voçê tem de ouvir as verdades! Lembre-se que hoje um rapaz foi preso por causa de si! Isso é feio! Percebeu? Também não tem o direito de falar assim para o Piélas, não pode tratar as pessoas como lixo! O Piélas é bom homem! É assim porque nasceu um bocado tarde! Percebeu? Demorou 12 meses para nascer!


Celestina: Pronto! Está explicado a razão da pancada do homem! Pois os burros é que demoram 12 meses para nascer!


Graça: Não diga essas coisas dona Celestina! O que é que a senhora vai fazer á missa todos os domigos, se passa a vida a fazer mal a todos? Hã? Diga dona Celestina! Você só de pisar o chão da igreja já está a pecar!


Celestina: (ofendida) Mas... Eu vou á missa para rezar pelo meu pobre marido e pelo meu pai que já estão no céu!


CENA 8


Os dois homens passageiros e a senhora passageira saem de cena assustados com a algazarra, fica só a dona Celestina e a Graça em cena


Graça: O seu marido não conheci, mas o seu pai lembro-me dele, morreu á 3 anos salvo erro! Era o senhor Preporciano não era?


Celestina: Era esse mesmo!


Graça: Pois! O seu pai era bom homem! E foi o bom homem que você deixou apodrecer no lar onde eu trabalhei! Nem o ia ver! Eu bem me lembro dona Celestina! E ainda fala você mal deste e daquela!


Celestina: Ouça aqui! Sua troika tinta, você não tem o direito de me chapar isso na cara! Meta-se mas é na sua vidinha.


Graça: As verdades são para ser ditas e agora se me dá lincença vou embora! (vai para sair)


Celestina: Ai vai embora? Não tinha de ir ao médico da vila tratar da sua osteoperóse?


Graça: (volta para trás) Quem disse que eu tenho osteoperose?


Celestina: Foi você!


Graça: (ri na cara dela) Acha mesmo que eu tenho osteaperóse? Eu estava a brincar consigo mulher! Não tenho doença nenhuma! Estou bem de saúde, rija que nem um calhau! Como vê não é tão esperta quanto parece! E agora se me dá licença vou andando!


Celestina: Olha que o seu primo deixou ficar o carapuço!


Graça: Qual meu primo?


Celestina: O pielas!


Graça: (ri) Nem o conheço de lado nenhum, só quero é ver se arranjo um companheiro, mas este fugiu! É que o meu marido já não me procura tanto! Vou á procura de outro companheiro em outro lugar!


(Graça sai de cena)


CENA 9


(fica Celestina fica sozinha e abandonada)


Celestina: Isso vá se embora! Vá se embora! Com que então anda á procura de um companheiro e com marido em casa. Badalhoca! Esta é que eu não esperava! Depois é mentirosa e eu estupida acreditei nela. Depois eu é que sou a má desta história! (imita a Graça) Ai tenho uma osteovirose! Afinal era a gozar comigo! (imita novamente a Graça) O seu pai era bom homem! Foi o bom homem que abandonou no lar! (fala normal) Sonsa! Lá sabe ela o que diz! O homem já não estava bom da cabeça! Já não o conseguia aturar! Abandonei o meu pai sim! Porque ele era um barrasco e abandonou-me uma vez em Angola, quando eu era criança. Andou para lá enrolado com as Angolanas, depois fez para lá filhos a dar com pau e elas não o largavam. Queriam todas casar com ele! Então fugiu para Portugal e deixou-me sozinha com a minha Mãe até rebentar a guerra. Depois, também viemos para cá!  Por isso essa Graça que não fale daquilo que não sabe! Mas ela tem-me as prometidas, pois com a Celestina não se brinca. Um dia destes agarro numa catana que o meu pai trouxe de Africa! Escondo-me ao pé da casa dela e quando ela for a passar! (pausa) ZÀZ! Corto-lhe umas silvas que ela tem lá ao pé de casa! Pois aquela mulher não vê nada á frente dos olhos. Aquilo mais parece a floresta da amazónia. Ela há-de ver que aqui a Celestina tem 60 anos, mas mas não anda a dormir! (tira uns binóculas da carteira) Há pois! Posso morar no monte da aldeia, um pouco isolada da população mas tenho a aldeia toda sobe o controle! Comprei estes binóculos nos chineses dão-me muito geito! Por isso a menina Graça que se meta a pau comigo, porque eu não brinco em serviço! Bem! O que é que eu estou para aqui a falar sozinha que nem uma doida? Vou-me mas é embora já que o autocarro não vêm. Mas amanhã vai ouvir poucas mas boas. (arruma a sua renda na mala, levanta-se) Ai as minha cruzes! (pega na mala e vai-se embora sai de cena)


CENA 10


Entretanto ouve-se o barulho de um autocarro a chegar á paragem. Aparece um autocarro (pode ser de papelão ou qualquer coisa a imitar a um autocarro). Lá dentro vem o Motorista a fazer que vem a conduzir


Motorista: Maldita paragem do autocarro sempre vazia! Eu não acredito que apanhei uma fila de carros pelo caminho, por causa de um papa reformas, para chegar aqui e não estar cá ninguem. Nunca mais me enganam! (arranca e sai de cena)


CENA 11


Entretanto aparece uma senhora de idade, com uma bengala vindo do lado contrario do autocarro.


Senhora de idade: A que horas passará o autocarro?  (olha  para as horas. Tira o horário do bolso) Está atrasado! Sempre a mesma coisa!(senta-se no banco)


(fecha-se os panos)



FIM
 
AUTOR: Luís Gonçalves



26/03/2013


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